1 de out de 2013

Review - Criminal Minds - S09E01 - The Inspiration











Por Débora Gutierrez Ratto Clemente

Atenção! Contém spoilers!

Poucos shows da tv americana tem arrancado dos meus lábios um sorriso de franco prazer ao final de cada exibição. Bom saber que Criminal Minds continua sendo um deles.Impressiona o modo como a série escapa da zona de acomodação mesmo após nove anos de exibição contínua, encontrando ano após ano um meio de surpreender sem render-se ao óbvio. Curioso é que tenho tido oportunidade de rever a primeira temporada pelo canal AXN e isso só deixa mais claro para mim o quanto a série, em meio a tantas turbulências, virou gente grande, cresceu e conseguiu encontrar um meio termo entre a prioridade absoluta aos casos e perfis dos quatro primeiros anos do show e o quase melodrama da sexta temporada.

 Como em uma dança bem cadenciada temos tido, da sétima temporada para cá, casos muito interessantes, resolvidos de forma bastante satisfatória, entremeadas de forma natural e convincente ao dia a dia dos membros da equipe. Funciona muito bem para o show, aquelas conversas e observações em meio ao caso, onde a química dos atores e atrizes e o texto menos carregado, mais solto e com algum humor, acrescentam à estória maior naturalidade ( como por exemplo, em um curto e bem humorado comentário, ouvimos o Morgan mencionar uma namorada, ou seja, a vida pessoal passa a ser explorada sem informações em excesso, sabemos que são humanos, mas não precisamos de um plot só para isto). Desta forma a série ganha credibilidade sem tornar-se uma novela. 

The Inspiration honra de forma eficaz o compromisso de uma Season Premiere. O episódio trouxe um pouco de tudo.  Ação, suspense, um caso interessante, muito perfil (parece que voltou para ficar o padrão que vinha aparecendo aqui e ali, na temporada anterior, um ping pong mais bem elaborado entre os agentes para explicar o perfil do unsub, o que afinal de contas, sempre foi o carro chefe da série).

 Atrelado ao caso da semana, vemos de cara as consequências da morte de Erin Strauss na temporada anterior, no que diz respeito ao Bureau. Um Hotch entulhado de trabalho burocrático, um evidente convite para assumir um cargo que em hipótese lhe permitiria passar mais tempo com seu filho e, de forma inversamente proporcional, lhe afastaria daquilo que ele sabe fazer de melhor: trabalho de campo. E assim, as preocupações de seu mentor (Rossi), os questionamentos de todos os seus subordinados, não apenas sobre como seu chefe lidaria com um trabalho meramente administrativo e político, mas obviamente com o rumo que a equipe pode ser obrigada a tomar e até mesmo, em um lapso genial, Dr. Reid deixando claro novamente o quanto tem ficado marcado pela série de abandonos a que vem se submetendo durante toda a sua vida e com os quais ainda não sabe bem como lidar ( o pai, Emily, Emily novamente, Maeve e agora, eventualmente Hotch) aparecem neste primeiro episódio da nona temporada. 

O episódio sabiamente começa com a iminência de um acidente de carro que envolve JJ e Morgan, onde, para sabermos seu desfecho, somos remetidos há flashbacks de dois dias atrás. Boa opção para injetar alguma adrenalina a um início um tanto cheio de explicações e perfis que virão a seguir. O caso para o qual são chamados, apesar de terem retornado a pouco tempo de outra tarefa, nem parece, em um primeiro olhar, tão estranho assim. Duas moças encontradas estupradas e mortas em parques de Glendale, Arizona, em posições que sugerem estarem orando. Em uma tentativa de fugir do lugar comum da primeira pessoa que aparece em cena ser morta pelo unsub da semana, nos surpreendemos ao descobrir que a vizinha impertinente tenha se safado de morrer logo de cara ( nem vem, o truque é esperto, eu sei que a maioria tinha certeza que a moça iria morrer, rs..). 

E aí surge o unsub, que se entrega em uma tomada de suas mãos com um dedo tremulando ao som de um sibilar, em uma referência clara a ofídios em geral. Não me importo, pessoalmente, com a apresentação do unsub logo de cara quando o episódio oferece entretenimento de qualidade. Reid em um comentário já explica o porquê das mortes serem uma à trás da outra – ritualistas, com delírios e tal, para que a gente não fique achando que eles estão acelerando só porque o episódio tem hora certa para acabar. Outro ponto que me chamou a atenção foi  terem também o bom senso de equilibrar a JJ, agente agora com capacidade para embates físicos, com a JJ de outrora, entrevistando de forma solidária e mais suave junto a Reid, o ex marido de uma vítima, recordando suas origens. 

Neste ponto do episódio a equipe já tem outra vítima, desta vez, casada, e é aí que os bate bolas  entre agentes começam a ficar interessantes. À medida em que as vítimas passam a apresentar variações, eles vão tendo mais material para chegar a uma conclusão. A autópsia acrescenta outro dado estranho, o fato do conteúdo estomacal de uma das vítima conter um dente de outra pessoa, o que leva à conclusão de um perfil sádico delirante pelo uso do canibalismo imposto. 

Entremeados ao caso, surgem os comentários da equipe sobre a situação de Hotch e do departamento e temos aí uma das cenas mais emblemáticas do CM Team: embaraçado com o fato de perceber o quanto a sua decisão deverá afetar o trabalho de seus colegas, Hotch em um momento meio desajeitado ( sim, ele não está acostumado a partilhar suas dúvidas com o resto da equipe) comunica o convite recebido para ocupar o cargo deixado pela Strauss. É aí que vemos a cara do time. JJ é a primeira a questionar o que acontecerá se ele aceitar ( a atriz o faz com a cumplicidade meio fraternal que a personagem adquiriu na parceria com o chefe em esconder do time a informação sobre a morte fake da Emily na sexta temporada). E Hotch responde de forma patriarcal, assumindo sua ideia de  responsabilidade que tem sobre o aspecto profissional, para não dizer pessoal de todo o restante do time. Sem se expor demais, mostra fidelidade aos amigos ao afirmar que, de certa forma, tenta fazer o melhor para ele e os demais. Morgan reage de forma inconformada, apenas através da expressão facial, revelando seu aspecto questionador e agitado, embora solidário. Rossi, por ser o melhor de Hotch não esboça reação, pois como melhor amigo, já está a par do assunto. Blake reage de forma apenas profissional, já que, por estar há pouco tempo no time, não tem vínculos profundos com seu chefe. E, de forma brilhante, apresenta-se em um take de poucos segundos ( sim, eu voltei a cena diversas vezes) a expressão de um Reid confuso e quase abandonado, em uma referência depois exposta no diálogo a seguir com JJ à sua fragilidade em relação a abandonos mencionados no início do texto. 

Duas coisas me incomodaram. A primeira foi o unsub andar com a cabeça de uma vítima para lá e para cá sem que a mesma exalasse qualquer odor repugnante ( juro, depois da cena da geladeira será difícil usar meu prato de bolo com tampa sem ter uma breve lembrança desagradável). A segunda, depois esclarecida ao final do episódio para mim, foi o porquê de usarem uma atriz como a Camryn Manheim para uma aparição meio apagada como mãe do unsub ( ela com certeza terá destaque na segunda parte do episódio).

Sobre o insight do Spencer a respeito do delírio do unsub, sinceramente achei meio confuso. Não vi necessidade ( à princípio, pode ser que de certa forma eles voltem no assunto no próximo episódio) de incluir a mitologia de Pheidippides na explicação apenas para ilustrar a determinação do suspeito. Somente quem conhece história grega ( ou fizer uso do Google) irá entender a referência. Reid conclui que o rapaz está obcecado pela figura do louva-deus. O dito bichinho é um inseto cuja fêmea costuma comer a cabeça do parceiro macho durante o ato sexual. Na opinião do jovem agente isto explica a posição em que os corpos das jovens são encontrados, o fato do conteúdo estomacal sempre indicar ingestão de apenas pedaços da cabeça da primeira vítima, o tiro no coração e indica também que ele está agindo ele próprio como o louva-deus, antes que as fêmeas que o cercam o façam. Acredito também que a relação do louva-deus e do fascínio por cobras fique esclarecida na segunda parte do episódio.

Com a informação obtida através do DNA da primeira vítima fica fácil para Garcia amarrar as pontas e chegar ao possível suspeito: um jovem inconformado com o rompimento do namoro entra em crise e é impedido através de ordem judicial solicitada pelos pais da moça de vê-la novamente. Anos depois ele descobre através de nota nas colunas sociais de um jornal que a tal jovem está de casamento marcado com outro rapaz. Este é o gatilho que desencadeia a morte da antiga namorada e demais vítimas que ele vê, de forma delirante, como possível ameaça.

Tenho de fazer referência aqui às cenas da alucinação. Utilizando-se dos recursos recorrentes em filmes de terror, em especial aos filmes japoneses, o efeito embora manjado, impressiona por ser inesperado na série. Lembro-me de episódios em temporadas anteriores que faziam referências a alucinações ( em especial Blood Hungry – 1x11, cujos efeitos são totalmente diferentes e causam muito menos impacto). A maquiagem da vítima e a edição de imagens frenética, com aproximação e distanciamento, causam o efeito esperado, fazer com que o espectador sinta a mesma angústia do unsub alucinando. A perseguição ao suspeito e sua fuga geram uma frustação momentânea, até que um guarda o reconhece através do retrato falado em um carro que passa por ele. A cena em câmera lenta não é por acaso. Os mais atentos já percebem que o sujeito que dirige o carro não está usando uniforme e está calmo demais, diferente de alguém que acaba de sair em fuga em uma shopping center. Uma vez dado o alerta, voltamos à cena do início do episódio para descobrirmos que o provável acidente de Morgan e JJ dentro do carro não passou de um susto. Detido, o suspeito passa pelo processo de fichamento e a equipe já aparece retornando à Virgínia dentro do jatinho. Neste momento o roteirista lança mão de outro recurso inesperado e ( para quem não lê spoilers), nos surpreendemos com o Hotch recebendo um telefonema ( as chamadas do meu celular vivem caindo mesmo quando falo com meu marido a seis quadras daqui, que inveja do Hotch que fala claramente em pleno ar!!!!!) afirmando que eles pegaram o suspeito errado, para logo em seguida vermos, aquele que para nós é o unsub, dentro de uma lanchonete, fazendo compras e vendo na tv ligada do estabelecimento a notícia da prisão daquele que através da frase final, saberemos ser seu irmão gêmeo. Sacada genial para um gancho para o próximo episódio!

O final do episódio abre um leque de possibilidades para as situações não explicadas do caso. Deixo aqui meu palpite e convido você leitor a fazer o mesmo: como a moça diz nas alucinações que o amava, acho ser possível que os gêmeos tivessem se revezado no relacionamento sem que ela soubesse ( dormindo ora com um, ora com o outro), causando revolta e o rompimento quando ela descobrisse a jogada dos irmãos. Da mesma forma acho que eles se revezaram também nos crimes, em uma espécie de alucinação conjugada. Só não fica claro para mim ainda, de que forma a mãe entra na jogada, já que ela não mencionou em nenhum momento o fato de ter tido filhos gêmeos (que ela pode sequer saber, ela pode ter dado o outro em adoção ou ter sido levada a crer que o segundo filho morreu no parto, por exemplo. Ou ainda, fazer parte desta alucinação coletiva).

Enfim, um início de première para chacoalhar a poeira das férias, cheia de inovações e sobressaltos que, espero, pontue todos os próximos episódios ao longo da nona temporada.

Observações que não consigo deixar de fazer:

* A ala jovem que me perdoe, mas alguém precisa apresentar Matthew Gray Gubler ao pente e à tesoura. Com urgência!
* Outro que precisa de tesoura no cabelo é Thomas Gibson. Mais um pouco e sua costeleta fará inveja a Elvis Presley!
* Um muito obrigada a roteiristas que prezam seus fãs e sabem amarrar as estórias com capricho. Refiro-me à menção de Rossi ao dizer a Hotch que Strauss trazia muito trabalho para sua casa, sugerindo que eles estavam em uma relação séria. Uma forma de dizer que Rossi não se esqueceu da mulher com quem estava em um relacionamento, só porque trocamos de temporada.
* Outro muito obrigada por Garcia achar suas informações de forma mais lógica (e às vezes não achar), não como se fosse uma vidente sentada em frente de um computador.


É isso. Que este ótimo episódio de estreia seja o prenúncio de uma ótima temporada, cheia de bons roteiros e as excelentes interpretações de sempre!

Que venha o 9x02!

Bjos!

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