9 de nov de 2013

Review – Criminal Minds – S09E05 – Route 66

Por Débora Gutierrez Ratto Clemente

Contém spoilers

Se eu pudesse dar um nome a esta review, acho que seria: A Consciência É Uma Droga ( eu ia dizer M...., mas este post é lido também por menores, rs). Dito isto, posso afirmar que muita gente com quem andei conversando não entendeu o episódio, ou esperava dele outra coisa. Vamos por partes ( como o esquartejador, para não fugir ao tema...).

Foi um episódio claramente feito para fãs da série, gente que acompanha o show desde o princípio, que repara em coisas que o espectador comum não nota se não lhe avisarem. Pequenos mimos como a placa do carro do sonho ser 509905 ( em uma nítida referência ao episódio “100”, onde Foyet mata Haley e o episódio atual ) ou a tomada do desmaio do Hotch ser exatamente igual à uma tomada da luta de ambos no episódio “100”, onde nosso agente acaba por matar nosso unsub favorito a socos - até o posicionamento de luz é o mesmo, fui rever a cena do “100”, a tomada é exatamente a mesma – posição da mão, a gravata caída de lado, câmera posicionada em linha, enfim, uma forma simbólica de dizer que Foyet o derrubou novamente. Há também a referência à estrada percorrida pelo unsub do episódio, título do 09x05 – Route 66, que atravessa os Estados Unidos de uma ponta à outra ( de Chicago à Santa Mônica – LA) e que é conhecida como “estrada da liberdade”, palco inclusive de filmes que exploram o tema, como o inesquecível Easy Rider, ou ainda o título do filme no sonho ser Decisions, Decisions, em uma alusão à sua decisão de não ceder ao acordo no episódio Omnivore, e agora, novamente ter que tomar ou não a decisão de deixar o passado para trás,  enfim, coisas que passam desapercebidas ao espectador que assiste Criminal Minds eventualmente. Mas, que para nós, fãs de carteirinha são um deleite. 


 Já sabemos que episódios que focam estórias paralelas, retratando em especial os agentes, não podem ter crimes muito elaborados, pois os quarenta e cinco minutos do episódio tornam-se poucos para abordar ambas as coisas, mas sempre espera-se que ao menos algo em comum com o tema principal seja abordado. Aqui também eles obtivem sucesso, mais ao final do show, quando o unsub também precisa fazer uma escolha. Frases como “I’sorry” foram constantes na prosa do unsub, pois era a temática principal do episódio, no que dizia a respeito do Hotch em relação à morte da Haley. Há também uma associação clara no modus operandi do pai, visto que, não por acaso, temos dois momentos de espancamento ( o do namorado da filha e depois o próprio unsub sendo surrado pelo dono do carro), em uma alusão nítida à surra que levou Foyet à morte. Nada no episódio foi por acaso. Route 66 fala claramente sobre escolhas, culpa e perdão ( tema também abordado na vida do pai da adolescente e explorado igualmente com a escolha de manter-se vivo ao final, atendendo ao pedido da filha).

Então porque a maioria das pessoas com quem conversei se decepcionou ou não entendeu o episódio? Fácil. Porque elas esperavam um encerramento. E porque elas acharam que a Haley em sonho  perdoou o Hotch. Lamento dizer, mas fantasmas não perdoam ninguém. Hotch ao sonhar ( e vamos deixar claro que isto foi uma licença poética, nas seis vezes que tomei anestesia geral, em nenhuma delas sonhei com nada, a gente apenas “apaga”, não fica tendo sonhos) não estava tendo o perdão de Haley. Ele estava buscando perdoar-se – o que aliás, é muito mais difícil do que obter o perdão de outrem. Senão vejamos: 

* Ele diz a Haley que sentiu sua falta, mas ela responde apenas: “- Eu sei!”, ao invés de responder:  “- Eu também!”

* Ela está focada em seu filho e no quanto ele tem crescido feliz e ela diz a Hotch que ele foi um ótimo pai ( ele só foi um pai presente depois da morte dela, logo não faria sentido ela dizer isto – este é ele querendo convencer-se de que está fazendo a coisa certa).

* Haley pede que ele fale mais dela para Jack ( ela quer que ele lembre da mãe, apesar de Beth cuidar bem dele), este é ele com medo do filho achar que ele está substituindo sua mãe.

* Ele parece feliz ao lado de Haley assistindo ao filme, mas Foyet novamente atravessa sua vida, agora de uma forma quase cômica, pedindo passagem, carregando um pacote de pipoca, entre as cadeiras do cinema. Mas desta vez, Haley não protesta, diz apenas: “- Eu o convidei” e quando Foyet atira nela suas palavras são: “- Está tudo bem, você não deve parar ( o sangramento/ de seguir com sua vida). E quando ele pede perdão, ela apenas ignora, meio que sem compromisso. Quando ele pede mais tempo com ela, o que ele ouve é que apesar de querer ter controle sobre tudo, ele não pode ter tudo. E depois Haley lhe diz para escolher certo, escolher ser feliz. Todas estas frases, dizem respeito ao seu próprio ponto de vista, em nenhum momento ela diz que ficaria feliz se isto acontecesse. 

* A ironia de Foyet e a espontaneidade de Haley são uma forma de dizer que o que já passou não pode ser mudado ( “- Você não pode conter!” – ela se refere ao sangramento, mas metaforicamente é o mesmo que dizer: “- Você não pode mudar  que aconteceu!”).


O que as pessoas aparentemente não entenderam é que Hotch não quer ser perdoado, ele quer perdoar-se. Em nenhum momento do episódio Haley diz a ele que o perdoa. Ela, ao contrário disto, pede para ele seguir em frente, porque a ele é a única coisa que resta. E aí surge a grande decepção de quem não entendeu o episódio. Para algumas coisas em nossas vidas não há encerramento. Nós sabemos que sonhos são formados de uma série de informações armazenadas em nosso subconsciente que se arranjam de forma aleatória para nos dizer coisas que nos incomodam de certa forma. O lado onírico do episódio foi exatamente isso. Uma das últimas coisas que Hotch viu antes de desmaiar foi a imagem do carro do Rossi da década de 40. Rossi, o amigo fiel que lhe faz companhia na ambulância, de certa forma é também o homem de quem busca conselhos e o “guia”. E, de forma inteligente, Hotch “sonha” com todas as coisas que de certa forma lhe incomodam, mas sem uma coerência, sem cumprir uma lógica em um  passeio pelo seu subconsciente. Porque ninguém sonha com lógica. Ninguém tem um sonho bonitinho com começo, meio e fim coerentes, porque sonhos só precisam fazer sentido para nós mesmos, não para os outros. É aí que o episódio ganha meu respeito. Porque sonhos refletem aquilo que nos incomodam e não aquilo que um fantasma vem do outro mundo para nos dizer. Quando Hotch sonha com sua mulher tirando a aliança e lhe dando permissão para ser feliz, é ele próprio querendo crer que está fazendo a coisa certa. Quem dera fantasmas pudessem nos dizer que estamos perdoados tão facilmente.

Assim sendo, quem esperava que ele fosse ter outro embate violento com Foyet decepcionou-se. Quem achou que o espírito de Haley veio dar as caras por aqui para abençoar a união de Hotch e Beth, decepcionou-se. Quem achou que Route 66 fosse encerrar este episódio na vida de Hotch decepcionou-se. Porque na vida, para algumas coisas não há encerramento que baste. Porque não basta ser perdoado pelos outros, precisamos nos perdoar, antes de tudo.

Por fim, uma observação: muitas pessoas reclamaram sobre o episódio mostrar/falar demais da Beth, li que ela apareceu mais do que deveria. Pessoas, entendam, Beth hoje faz parte da vida do nosso engravatado e sisudo agente predileto. Por mais que muita gente tenha cismado com a moça, não há motivos para achar que ela vai virar fumaça do nada. Mesmo com a atriz tendo compromissos profissionais com outra série, a personagem vai se manter, porque o perfil do personagem não é de um galinha. O cara é maduro, pai solteiro e responsável, não faz sentido ( aliás iria totalmente contra a tudo o que o personagem foi durante a série inteira) ele ficar trocando de namorada, só porque uma parte do fandom não gostou. Salvo algo para incrementar o roteiro, ela continuará sendo eventualmente mencionada e deve fazer qualquer hora, uma ou outra aparição ( a atriz já deixou claro em entrevista que há interesse em manter acordo para novas participações, a pesar de seu papel em Scandal crescer vertiginosamente). Além do quê, as imagens com Beth foram usadas por motivos práticos: ele precisava fazer uma revisão de sua vida pós-viuvez e as poucas cenas dele sozinho ou com o filho que refletiriam seus pensamentos foram ao lado da moça.

Comentários whatever:

*Momento WTF!!!!! O que foi o Reid lendo: A Matemática dos Mágicos da Física Quântica? E, meu filho ( fã da matemática) que me perdoe, mas como Morgan, prefiro esperar pelo filme, rs...

*Ainda acho que a estória do suicídio da irmã da JJ voltará a ser explorado mais para frente e, talvez explique de alguma forma sua relação com o novo chefe de seção ( acho que não foi aleatório ela mencionar isto para o unsub no final do episódio). Neste momento, escrevendo esta review, já assisti também ao episódio 9x06 e, novamente a sua irmã foi mencionada na casa da Garcia. Ainda acho que estas menções não são aleatórias.

*Para quem não sabe, o carro de 1947 que aparece conduzindo o Hotch ao cinema foi o primeiro carro do ator Joe Mantegna, que ele conserva até hoje como relíquia ( o próprio Joe twittou a informação).

*O cinema onde foram filmadas as cenas do sonho do Hotch na verdade foi o primeiro cinema a ter música ao vivo na época ainda do cinema mudo.

*O balão vermelho que o Hotch segue no cinema, torna a aparecer por entre os balões que Jéssica carrega ao entrar em seu quarto no hospital, uma forma poética de dizer que ele precisa cumprir suas promessas ( a de escolher certo, a de escolher ser feliz ). 

*A cena onde Penélope abraça Hotch foi super espontânea e ele realmente parecia não esperar por tal reação da amiga.

*A interpretação de Thomas Gibson neste episódio foi uma lição sobre menos ser sempre mais. Com uma interpretação minimalista, de pouco texto, mas cheio de pequenas expressões faciais, Thomas nos ensina que a emoção fala por mais que palavras. A expressão carregada de confusão, arrependimento e culpa nos emociona sem ser piegas, nos leva às lágrimas sem ser banal. Algo nele nos indica que ele grita por socorro sem dizer uma palavra. E, algo me diz,  que se a série fosse só sobre ele, veríamos o personagem constantemente sonhando em uma tentativa de perdoar-se diariamente. Por isso, quer ele se case ou não com Beth, nada vai mudar. O semblante tenso, a sensação de que ser feliz é um bônus sempre irão permear a vida do nosso agente sisudo. Porque nossas guerras interiores são batalhas perdidas quando não queremos acreditar que somos merecedores. E nosso agente ainda não está pronto para acreditar nisto.
Dito isso, só posso dizer que o episódio foi sensacional. Espero apenas que toda a dor do nosso agente “super sério” Hotchner ainda venha a se manifestar futuramente e que faça jus à máxima: “não há perdão a quem não se perdoa!” É, com certeza, uma estória ainda a ser explorada. É assim que se constroem personagens inesquecíveis.

Que venha o próximo episódio!.................. 
Abraços!




0 comentários:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...