29 de jul de 2017

REVIEW- SUITS S07E03- “Mudmare”



 Há alguns dias, no twitter, Gabriel Macht (Harvey) resumiu a sétima temporada com a palavra “cray” (gíria americana para louca, maluca). Já na review da semana passada eu disse que, ao que parecia, esta temporada faria uma abordagem no campo psicológico de forma mais intensa que o normal. Bem, Mudmare confirmou tudo isso. Todos os personagens mudaram seus lugares habituais e, em menor ou maior grau, isso está afetando suas mentes e comportamentos. 
Começando por quem mostra mais sanidade, tivemos Donna e Rachel assumindo suas novas posições na PSL: COO e Supervisora dos associados, respectivamente. De cara, Rachel se deparou com a insubordinação de uma associada e, verdade seja dita, ela não soube impor sua autoridade. Quando a situação atingiu um limite insustentável e estava sendo exposta à todo o grupo de associados, Donna resolveu interferir. Rachel não apreciou o gesto e entendeu que a amiga prejudicou o seu reconhecimento como autoridade perante os associados. A discussão acabou com cada uma declarando que a outra não estava preparada para a nova posição – e realmente, mais à frente assumiram que não estavam.
Há um tanto de razão e um tanto de erro nas duas mulheres. Fato é que Donna é agora COO na empresa e isso implica em dizer que os associados respondem a Rachel, mas Rachel e associados respondem a Donna. Se alguém começa a acreditar que é bom o bastante para desrespeitar uma cadeia de comando, então é papel de Donna explicar como as coisas funcionam. Por outro lado, Donna é amiga de Rachel e, talvez, por essa razão devesse ter percebido que a sua atitude desmoralizaria a sua liderança como supervisora – embora a meus olhos, a autoridade de Rachel já estivesse bem desacreditada. Só que foi também por amizade que Donna se viu no dever (e no direito) de agir como agiu. A situação toda era muito favorável a um conflito, afinal. Felizmente, a sensatez caiu sobre as duas com rapidez e as amigas reconheceram seus erros e fizeram as pazes. Não dá pra deixar de reparar como a amizade de Rachel e Donna faz um contraponto enorme com as relações entre os homens da série, cujos desentendimentos normalmente levam muito mais tempo e causam muito mais estragos (desnecessários).
Ainda sobre esse ponto do episódio, há algo que merece comentários. Eu nunca gosto quando usam a tal frase do “Eu estou aqui, você está aqui” e dessa vez também não foi algo que me agradou ouvir. Porém o contexto em que Donna diz isso é totalmente diferente de quando outros personagens usaram a fala. Quando Cameron, Harvey e Louis o fazem eles estavam usando sua posição na hierarquia para calar alguém que apontava um erro deles, a cadeia de comando era usada para justificar suas próprias condutas equivocadas e rebaixar seus subordinados, quando estes estavam certos. Donna, por outro lado, usou sua posição para defender uma amiga e para pôr no devido lugar alguém que de fato estava tendo um comportamento inaceitável. A frase é incômoda de ouvir, mas, na situação colocada ali, não é arrogante.
Tem sido muito interessante, na verdade, ver Donna nessa posição de comando. Isso abriu espaço para enxergamos outros lados da personagem. Donna não tem que ser sempre o alívio cômico da série, ou o ponto de apoio para os outros personagens, ou ainda, uma extensão de Harvey. Com o novo cargo, espera-se que Donna possa participar com maior expressão dos plots principais do show e ter suas próprias histórias. Donna honrou as calças que vestia – vocês repararam que ela estava de calças, certo? – e foi brilhante tanto impondo sua liderança como reconhecendo suas falhas. Diferente de Rachel, ela não teve receios de ter como seu primeiro ato no novo cargo a demissão de uma funcionária, mas soube fazer isso num belo equilíbrio de determinação e amabilidade. Para ser sincera, não esperava nada diferente dela.
Mike, por sua vez, tem sido uma surpresa positiva durante essa sétima temporada. Em ocasiões passadas ele costumava me irritar ou por razões de hipocrisia, ou por ingratidão ou só por todas as histórias da série focarem excessivamente nos dramas dele. Porém, neste momento,  Mike tem representado um ponto de sensatez e coerência que o distingue das outras figuras masculinas da série. Mike foi congruente com seus valores ao dar primazia ao caso pro bono – que tinha tanta identificação com as suas experiências pessoais na cadeia –, foi responsável ao dar satisfações a Harvey e cumprir o que pode de seus casos corporativos e foi diligente ao tomar as cautelas jurídicas necessárias para assumir o novo cliente. Mas Mike não contava com a má-sorte de um conflito com um dos clientes de Alex. Mike também não contava com imprudência e a falta de consideração de Harvey. Aliás, quem é que Harvey anda considerando mesmo? (Na verdade eu consigo pensar em uma pessoa, mas isso é outra coisa que também está fugindo da lógica e prefiro não comentar agora).
 Harvey não só quebrou um acordo com Mike, mas Harvey tem sido agressivo e impulsivo em cada decisão que toma. Em vez de ser um líder que dirige e busca cooperação, Harvey tem agido apenas como dominador, desprezando e humilhando qualquer um que não assinta às suas escolhas. Não sei dizer se foi o peso do novo cargo ou qualquer outro evento na vida de Harvey, mas a verdade é ele perdeu todo o sentido e o personagem começou agir de forma absurdamente contrastante com o desenvolvimento que ele vinha tendo nas últimas temporadas. A pitada de arrogância sempre foi uma marca do personagem e isso, de certa forma, lhe trazia algum charme. Agora a arrogância toma o personagem quase que completamente e só causa antipatia.
Julgamos tanto o Louis por suas instabilidades, por sua inveja e por seus sentimentos mesquinhos, mas será que podemos sempre culpá-lo? Nesse episódio eu não consigo. Honestamente, senti verdadeira dó de Louis.
Em primeiro lugar, a caracterização que Harvey fez de Louis para Alex foi carregada de prepotência e egocentrismo. Sabemos que Harvey sempre gostou de provocar e aprontar com Louis, mas como ele mesmo já disse, essa era a forma dele demonstrar apreço. Ainda, em momentos passados ele mostrou que valorizava a competência profissional de Louis. Não vi apreço ou valorização dessa vez, apenas alguém cheio de si gabando-se por alguém que o ama e o inveja. Apesar de seus defeitos, Louis deseja receber uma amizade sincera de Harvey e ele tem se esforçado para ter isso. Harvey, por outro lado, não lembra dessa amizade até precisar dela.
Em segundo lugar, é preciso falar da forma cruel e insensível como Harvey tratou o sócio quando este lhe apontou o erro que estava cometendo acerca do descumprimento do acordo com Mike. Em verdade, Louis já tinha afastado suas questões sentimentais do problema e apresentou o erro pelo ponto de vista estratégico e profissional. Harvey, para fazer valer unicamente sua vontade, decidiu atingir o ponto fraco de Louis e apelou para o emocional. Usou dos defeitos do sócio para lhe lançar uma acusação maquinada e rude sobre ciúmes. O resultado foi a visão de Louis num profundo e preocupante surto psicológico, aos berros no telefone com seu terapeuta e projetando o próprio Harvey na figura de seu psicólogo (psiquiatra?).
E é esse evento da projeção que me faz voltar para o assunto que evitei anteriormente. Para mim, a projeção foi um indicativo de que algo semelhante pode estar acontecendo com Harvey. O evento que aconteceu com Louis dentro de um quadro de surto, pode estar acontecendo com Harvey de forma mais sistemática e ele pode estar dirigindo para a psicóloga os sentimentos retraídos que tem por Donna. Ou alguém tem uma explicação mais razoável para a paixão súbita de Harvey? Alguém consegue dizer por que Paula “Esquecida no churrasco durante a toda a sexta temporada” Agard é agora a única pessoa digna da atenção e do afeto de Harvey?
Nesse episódio, Paula começou a enxergar os problemas éticos desse relacionamento e se sentiu envergonhada e assustada por isso. O problema é que para todo lampejo de consciência de Agard, haverá um Harvey fazendo uma bela cena que faça ela esquecer do que estava falando. Aparentemente, Deus proibiu que qualquer mulher seja capaz de suportar o charme do irresistível Harvey Specter. Essa é a minha grande decepção com a personagem de Agard. Da quinta para a sétima temporada ela se tornou mais fraca e com muito menos neurônios. Como vimos, ela já tem consciência do problema ético deste relacionamento, resta saber quando ela vai usar seus conhecimentos psiquiátricos para questionar a legitimidade dos sentimentos de Harvey.
Ao passo que a gravidade do quadro psicológico de Louis foi escancarada na cena final, os distúrbios da mente de Harvey estão sendo mostrados de forma mais velada, mas são igualmente graves ou piores. Afinal, ao menos Louis está consciente de seus transtornos e buscando ajuda profissional, enquanto Harvey está dormindo com a terapeuta.
Há tanta insanidade circulando pelas tramas de Suits ultimamente que já estou esperando a cena em que alguém acorda e tudo o que vimos nessa sétima temporada até agora não passou de um sonho (pesadelo?) de algum dos personagens.



Notas:

1.      Pensando seriamente em já deixar aqui um tópico fixado só para elogiar a atuação de Rick Hoffman. Fantástico!
2.   Um momento para apreciar as manchetes de zueira que Harvey fez para Mike. Um dos raros momentos legais de Harvey nessa sétima temporada.


3.     Acho que se eu não estivesse tão antipática a Harvey nesse momento, eu conseguiria curtir o bromance dele com Alex. Há um bom material ali. Mas a questão que ainda paira sobre o que aconteceu no passado que faz sempre Harvey se sentir devedor e ceder algo grande em favor de Alex. Engraçado, na temporada passada Harvey fazia um monte de bobagens porque se sentia culpado em relação a Mike. Agora esta posição é de Alex.
4.   Quero muito voltar ao tempo em que meus comentários sobre Harvey não tinham tantas reclamações. Eu realmente quero.
5.    Oliver geralmente me dá sonolência, mas não é que o rapaz teve uns bons quotes? “Todo mundo tem seus hobbies, Mike. Os meus são quadrinhos.O seu é ajudar as grandes corporações a ferrar o cara pequeno”.
6.   Os sete estágios de Louis: pânico, tristeza, auto-aversão, ódio, justificação, auto-aversão novamente e raiva. Essa é pra anotar e ir diagnosticando durante os episódios
7.   Memorável ver Donna falando “Eu posso falar por mim mesma” para Harvey. Quanta presunção a dele de achar que pode dizer que a posição dela será sempre de acordo com a dele. Isso foi um marco de que Donna agora é uma figura independente dele dentro da PSL.

 Curta Suits BRASIL!


            Assista a promo do próximo episódio, Divide and Conquer:







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