24 de jul de 2018

REVIEW- SUITS S08E01("Right-Hand Man")

"Você acha que Rachel não me contou sobre a poderosa Donna Paulsen?"







Suits estreou sua oitava temporada tendo que atender a mais desafios do que costuma ter. A saída de Mike e Rachel (além do afastamento mais definitivo de Jessica a partir de seu spin-off) deixou os telespectadores com a procedente dúvida sobre se a série é capaz de sobreviver sem metade do seu cast original ou se deveria ter sido dado um ponto final à história na sétima temporada.
Do ângulo em que vejo, a questão está muito mais ligada a ser capaz de seguir com consistência no roteiro ao mesmo tempo em que apresenta uma nova premissa instigante para o público, do que ter que lidar com a ausência de algum personagem que outrora era essencial para a série.
Do ponto de vista do roteiro, Mike e Rachel não fazem falta neste primeiro episódio. Claro que se olharmos a questão do ângulo de vínculo de afinidade e afetividade com os personagens, não se pode dizer o mesmo. Porém o que quero dizer é que toda a história feita nesse episódio poderia facilmente ter sido rodada com a presença de Mike e Rachel (troque Alex por Mike e Katrina por Rachel) e o resultado final seria basicamente o mesmo, com os mesmos acertos e defeitos – com a única diferença de que com Katrina e Alex temos abertura para desenvolvimento de personagens que não conhecemos bem.
Isso reforça que os personagens que se foram não eram mais essencialmente necessários à construção dos enredos; os seus ciclos estavam fechados a sua importância se firmava muito mais pelo que eles representaram no passado e pela identificação que o público tinha com eles. Reforça também que a grande questão para a sequência de Suits é a qualidade e consistência da escrita independentemente dos personagens que lhe sobraram e dos que lhe foram acrescentados para trabalhar. E é justamente a consistência o que me incomoda.
Quando Suits optou por apertar o reset a fim de seguir com a série, acabou também escolhendo dar alguns passos pra trás em certos enredos e  desfazer alguns status quo.  E não há nenhum problema em fazer isso desde que você não desdiga as verdades que a série gastou uma/algumas temporada(s) para construir.
 Eu não estou nem querendo falar do fato que uma temporada inteira foi despendida com Harvey e Donna tendo de encarar o que sei lá que eles sentem um pelo outro, mas que agora parece ser um assunto que todos fingem que não aconteceu. Esse é um problema grave, mas como já conhecemos a tradição de sempre adiar o casal, já não ficamos tão surpresos.
 De outro lado, o público não deve ter esquecido que a sétima temporada enfatizou repetidamente como Harvey Specter estava preparado para assumir as rédeas da empresa e como se tornar managing partner parecia a evolução natural do seu personagem tanto de um ponto de vista profissional como pessoal. Porém a nova verdade universal pregada neste início de temporada é que Harvey está destituído desse dom de comando e na verdade prefere ser o cão de briga do que quem segura a coleira. Suits precisa decidir o que ela quer que o público acredite, especialmente quando o assunto é a base essencial de seus personagens, de suas aspirações, de suas relações.
Entrando no conteúdo de fato do episódio, a primeira linha do enredo envolveu o confronto de Harvey e Zane diante dos impasses resultantes da nova configuração da firma pós fusão. A fim de resolver um conflito de interesses entre clientes, era necessário que o cliente de Harvey ou o cliente de Zane abdicasse de um determinado setor dos seus negócios para que o conflito cessasse. Assim, estabeleceram a aposta de que o primeiro que conseguisse que seu cliente desistisse de sua divisão seria sócio-administrador. Obviamente, estamos falando de Suits e nossos apostadores não iriam seguir todas as regras. Assim, Zane e Harvey escalaram seus jogadores para que fizessem com que os clientes dos adversários acabassem se desfazendo de divisões das suas empresas.
É nessa oportunidade que conhecemos Samantha Wheeler aka Right-hand (wo)man de Robert Zane. A personagem, interpretada pela famosa e polêmica Katherine Heigl, é uma das grandes apostas de Suits nessa renovação da série. Aparentemente, o propósito era que precedente fama Katherine arrebanhasse um novo público para Suits. É difícil dizer, porém, que o método pode ser eficiente, porque, se de um lado a fama da atriz tem uma considerável negatividade, de outro temos o acréscimo de que sua personagem não é, pelo menos a primeira vista, agradável. Claro que isso é algo que pode se alterar ao longo dos episódios, mas a introdução de um personagem novo na oitava temporada em oposição a um personagem já querido do público há eras como Harvey, tende a suscitar o famigerado ranço.
A despeito de alguns comentários que vi por aí, não consigo situar Samantha como substituta imediata de nenhum dos antigos personagens. Ela não partilha características com Mike ou Rachel e sua imponência ainda não é suficiente para colocá-la no páreo de Jessica Pearson. Todavia, pescando características aqui e ali, Samantha tem a altivez da antiga sócia-administradora, misturada com a arrogância e espírito transgressor de Harvey em seus primeiros estágios e ainda o tom irritante de um eventual antagonista, mais ou menos como Louis era na primeira temporada (mas sem a comicidade). Se a mistura pode ficar boa, veremos. Ainda que Samantha não se encaixe exatamente nos moldes de outros personagens, a relação dela com Zane me lembra muito a própria relação de Harvey com Jessica, ela é alguém em quem Zane confia pra brigar por ele, parece ser leal a ele mas também não se faz de rogada na hora de exigir recompensas.
Do outro lado da briga, Alex Williams foi designado por Harvey para lidar com o problema, mas o enredo ainda nos deu muito pouco espaço para encontrar coisas para nos afeiçoar nesse personagem. Ele não tem uma característica singular que o destaque dos outros, um backstory comovente ou uma aspiração empolgante. Além de ser mostrado como alguém se esforçando para conseguir seu nome na parede, o personagem de Alex não tem mais nada e continua sendo muito pobremente construído. Aliás, os plots de nome na parede também já não empolgam mais. Na verdade, o número de mudanças no nome da firma se tornou cansativo e digno de piada.  Apesar disso, Suits parece estar firmando a corrida para ver quem entre Alex e Samantha chega lá primeiro.
O enredo se resolveu com Harvey, contra o conselho de Donna, saindo da cabine do técnico e entrando em campo por si mesmo. Isso foi a prova cabal para mostrar que Harvey não tem o perfil para sócio-gerente e é o nome de Zane que deve vir primeiro na parede. Harvey volta a ser apenas sócio nominal, como também volta para seu antigo escritório.
A segunda linha do enredo deste episódio saiu um pouco mais da perspectiva de disputa de egos e mergulhou em dramas mais pessoais. Pra mim, um plot mais interessante. A robótica Katrina – não vista nem como homem nem como mulher por Louis – foi designada para a tarefa de escolher os associados que seriam demitidos da empresa, tarefa que ela escolheu realizar roboticamente e acabou se esbarrando em questões pessoais. Na lista dos “menos eficientes” segundo seus algoritmos estava Brian, associado que desenvolveu uma relação próxima a Louis em um nível tanto pessoal como profissional e que Louis certamente se negaria a demitir.
Katrina pautava a justiça na decisão das demissões à frieza dos números que tinha calculados e acabou precisando de alguém que está milhas à frente dela no quesito inteligência emocional. Claro que estamos falando de Donna Paulsen. Foi Donna a responsável por fazer Katrina enxergar o que nem sempre aparece nos números oficiais, nos títulos e nas qualificações, mas que no fim das contas é um acréscimo positivo e especial ao grupo como um todo. A ocasião foi importante para desfazer um ponto obscuro do episódios passados quando Katrina questionou com Harvey a promoção de Donna e ainda marcar o início de uma relação de amizade e até tutoria entre essas duas mulheres. Mas há também quem veja no convite de Katrina para um drink algo além de amizade, se é que vocês me entendem. E quem resiste a Donna Paulsen?
Se sempre se disse que Donna é a cola que mantém todos os personagens dessa série unidos e funcionando adequadamente, nesse episódio eu diria que ela foi o super bonder, o durepoxi, o cimento que juntou todos os caquinhos em literalmente todas as contendas do episódio e organizou para que as engrenagens voltassem a funcionar. E finalmente foi reconhecida por isso. Depois de uma temporada inteira com recorrentes questionamentos sobre o novo cargo de Donna, além da própria personagem muitas vezes se mostrando insegura na nova posição, foi muito agradável vê-la enfim confiante, confortável e bem reconhecida no seu cargo mais que merecido. Donna não só salva Harvey dele mesmo, ela salva a equipe inteira de se autodestruir.
No fim das contas, o episódio funciona, mas só se você olha numa perspectiva micro. Quando se tenta olhar para o quadro todo da série fica faltando algo. Temos pequenos enredos, pequenas histórias que funcionam aqui e ali, porém elas trazem em si o traço da temporariedade. Suits trouxe a renovação mas não trouxe uma nova premissa. Costumava ser uma série sobre um advogado falso contratado por um advogado legítimo e como este último foi mudando o seu modo de ser e agir em face dessa relação. Agora Suits é sobre o que? Ser só uma série de advogados pode garantir alguns e até bons episódios, mas não garante uma série sólida ou uma nova gama de espectadores para se sustentar.

Notas:
1.       A saída de Mike e Rachel trouxe como pró uma nova abertura para a série. A nova introdução está bem feita, tem uma distribuição equânime dos personagens e felizmente manteve Greenback Boogie como tema.
2.       Decepção é esperar que Harvey tivesse deixado o casamento com Donna, mas ele sai com Robert atrás de hambúrguer.
3.       Não posso torcer por Sheila e Louis com ela exigindo que Louis se desfaça dos gatos.
4.       Dentre os novos personagens regulares, é sobre Katrina que tenho mais curiosidade. Ela já aparece na série há bastante tempo e continuamos sabendo muito pouco sobre a personagem. O potencial da personagem é enorme. A química com Louis sempre foi muito boa e esse episódio mostrou que a química com Donna também pode ser incrível. Suits tem como ponto forte muito mais as relações cativantes dos seus personagens do que as storylines de fato, por isso vejo que Katrina está muito bem colocada.
5.       Uma boa secretária sempre escuta as conversas do seu chefe, assim como uma boa COO deve ouvir as reuniões das sua empresa.
6.       Seja na descrição de funções como secretária ou como COO, é sempre tarefa de Donna salvar Harvey dele mesmo. Pessoalmente, também a vejo carregando a tarefa de salvar a série.
            Curta Suits BRASIL!
Assista a promo do próximo episódio "Pecking Order":




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