20 de ago de 2018

REVIEW- SUITS S08E05("Good Mudding")

"Eu juro que tirou um pedaço de mim, Donna."


“Família vem primeiro. Sempre veio. Sempre virá”. São as palavras de Robert para explicar o que deve ser prioridade mas também servem para, de forma sucinta, explicar o tema recorrente de Suits há oito anos. É certo que, na maioria das vezes, a série abordou sobre as relações construídas ali no ambiente de trabalho, a família que acaba se perfazendo no dia a dia. Porém, talvez por toda a reestruturação que tivemos nessa família, esse episódio trata primeiro dos laços de sangue e daí então, quem sabe, podemos voltar a falar dos laços dentro dessa equipe de trabalho e que, mesmo tão diferente do que já foi, ainda pode continuar a ser vista como uma família. Ainda tenho muitas insatisfações com a forma que a escrita da série tem sido conduzida, mas falando de sensações, esse episódio me passou muito o sentimento de antigas temporadas, um encantamento que havia desaparecido há um certo tempo.
Enquanto Alex Williams ainda não consegue demonstrar carisma por conta própria, a sua filha nos foi apresentada e com muito mais rapidez cumpriu essa função por ele. Joy, uma adolescente levemente transgressora, havia recebido uma suspensão escolar e ganhou uns dias para aprender mais sobre a vida na empresa onde o pai trabalha. E já que Joy não tem estado muito disposta a ouvir Alex (te entendo, Joy. Eu também não estou), o serviço de tutoria da adolescente foi terceirizado para Samantha Wheeler, supostamente a figura descolada que serviria de role model  para a jovem garota.
Samantha mostrou mais uma de suas facetas manejando bem uma conexão com a adolescente e logo conseguiu recrutá-la para uma missão jurídica. Enquanto Samantha precisava saber de algum desvio do seu adversário para usar como trunfo em um depoimento, ela usou da oportunidade para ensinar Joy a trabalhar com o que se tem: autoconfiança e blefe. Joy, porém, alegrou os planos da advogada ao trazer algo de mais concreto à suas estratégias quando conseguiu gravar a conversa da parte contrária assumindo que plagiou o medicamento do cliente de Samantha.
Samantha usou a informação como vantagem e conseguiu um acordo vitorioso em troca de não levar a história aos tribunais. Todos muito felizes na ZSL até que Alex descobriu que Samantha andou ensinando a Joy como é andar nas fronteiras da lei. Algo não muito aliado à sua intenção de ensinar à filha os prejuízos da mentira e da violação das regras. Samantha se justificou dizendo que só queria mostrar a Joy como o mundo funciona e é então que Alex diz as palavras mais significativas que ele já disse até hoje na série: “O papel de um pai não é ensinar aos seus filhos como o mundo é. O papel de um pai é um pai é ensinar a eles como um mundo deveria ser”.
Ainda que Samantha tenha segurado a postura após o confronto com Alex, mais tarde quando reencontrou Joy, ela reconheceu a razão do pai da garota e lhe ensinou valiosas lições. Temos Samantha mais uma vez contando um pouco do seu passado que, aparentemente não deve ter sido fácil e moldou a sua dureza para lidar com a vida. Alinhados os passos mais uma vez entre Samantha e Alex, o advogado resolve trazer mais honestidade para esse novo laço e esclarecer que ele também tem uma posição na corrida para se tornar sócio nominal (insira aqui seu bocejo), uma vez que a promessa de Harvey pesa a seu favor. Que vença a melhor mulher – palavras de Samantha, não minhas, mas excelentes, por sinal.
Enquanto uns já lidam com os desafios da paternidade, outros ainda estão no caminho para ter essa oportunidade. A saga de Louis para tornar-se pai seguiu nesse episódio com o pedido de Sheila para que o companheiro checasse a sua fertilidade. Sheila, uma mulher que não há muito reviu abruptamente sua decisão de não querer ser mãe, nesse episódio colocou o objetivo de gerar uma criança como centro de suas preocupações. Suits tem pecado muito pela incoerência.
De todo modo isso nos levou a uma cena divertida entre Harvey e Louis com o humor característico de Suits e que traz traços desses personagens que tanto amamos: o deboche de Harvey e a falta de noção de Louis.
Após chegar a uma conclusão sobre o tipo de coisa em que pensaria para estar “no humor” de fazer o que é preciso fazer num teste de esperma, Louis procedeu ao exame e tudo correu bem até ser solicitado a ir pessoalmente ao consultório. A falta de noção de Louis atacou novamente (mas de um jeito que já não me agrada tanto) e ele chamou Donna para ir com ele à consulta, quando obviamente a mulher que deveria acompanha-lo seria Sheila. Após Donna reafirmar sua amizade mas mesmo assim explicar que não lhe cabia atender ao pedido, o advogado foi sozinho ao consultório e recebeu a notícia de que embora estivesse tudo bem com sua fertilidade, ele teria chances substancialmente mais altas de engravidar Sheila se desistisse dos seus banhos de lama. Ah qual é, Suits? Banho de lama? Primeiro que isso não tem sentido biológico. Segundo que colocar a questão lama versus filho como grande dilema da vida de Louis foi um dos plots mais sem sentido que já vi.
Tão logo se viu pressionado pelo trabalho – pressão propositadamente orquestrada por Sheila – Louis recorreu ao banho de lama para relaxar mas a sua escapada não passou despercebida por sua companheira. Sheila então expôs a Louis a quantidade de prazeres pessoais que ela estava abrindo mão em vista de conseguir gerar a criança que ele tanto estava dizendo querer, além de confrontá-lo sobre os demais sacrifícios que poderiam ser exigidos dele quando a criança chegasse. Acredito mesmo que Sheila tem razão e Louis merecia ouvir todo esse discurso, porém ela ainda parece chata e desagradável dizendo todas essas coisas. Talvez isso se deva à forma um tanto equivocada que a personagem tem sido (des)construída. No princípio uma personagem cômica e caricata que se combinava natural e perfeitamente à personalidade de Louis, hoje uma personagem sem consistência que é moldada na conveniência do plot que estejam desenhando para Litt. Daí não sabemos mais se Sheila deseja de fato ter uma criança, se ela está apenas tentando realizar um sonho do Louis, se ela está revoltada pelos sacrifícios que ela mesma precisa fazer, se está ofendida por Louis não precisar estar no mesmo comprometimento (quando o sonho na verdade é dele) e as palavras dela parecem vazias, pois não sabemos mais no fim das contas qual é a essência da personagem.
Encerrada a discussão de relacionamento entre o par, Louis decide cancelar sua filiação para os banhos de lama para não cair mais em tentação. Donna, ciente da notícia, mais uma vez presenteia Louis com sua sensibilidade e amizade tentando aliviar um pouco a dor da sua renúncia com uma caneca de lama no “gosto” exato de Louis e com a inscrição: Melhor pai do mundo.
Seguindo seu papel de auxiliadora nos problemas alheios, também é Donna que traz para Harvey a questão familiar que ele tem para resolver. Quando o assunto é sério e Marcus realmente precisa falar com seu irmão, então é com a cunhada, digo, Donna, que ele deixa o recado para que Harvey entre em contato.
Marcus revela ao irmão que precisa de sua ajuda profissional para lidar com o processo de divórcio e guarda dos filhos. Os traumas de Harvey voltam para assombrá-lo quando Marcus lhe confessa que um caso extraconjugal é a razão para estar se separando da esposa. Ciente do quanto a situação pode mexer com suas questões pessoais, Harvey vai ao auxílio de Marcus, pois apesar de tudo é seu irmão e Harvey se sente no dever de ajudá-lo.
Após a tentativa de um acordo de paz falhar, Harvey logo se vê lutando pelo irmão no meio da batalha pela guarda das crianças. O problema é Harvey chegou ali com uma versão equivocada da história contada pelo seu irmão. Se Marcus contou uma mentira que por si só já perturbava muito o emocional de Harvey, a verdade que ele tentava esconder era ainda mais prejudicial. Não foi um affair que ocasionou a separação de Marcus e Katie, foi o fato de Marcus tem voltado a apostar, esconder seu erro e ainda ter arrastado a sua filha numa promessa para manter o segredo.
Os traumas que Harvey carrega parecem estar muito mais ligados ao que ele precisou esconder do seu pai do que ao adultério da sua mãe em si. Quando o problema de Marcus estava relacionado apenas a um suposto adultério, Harvey ficou afetado mas ainda assim com uma forte disposição a ajudar o seu irmão. Porém, é quando fica claro que Marcus repetiu um erro de Lily em fazer uma criança carregar a responsabilidade de esconder algo importante de alguém que ama que Harvey realmente se mostrou despedaçado e decepcionado com Marcus a ponto de, naquele momento, não estar mais disposto a representá-lo.
É uma conversa sensível e profunda com Lily que flexibiliza Harvey mais uma vez. Lily reconhece a sua responsabilidade pelo modo em que as personalidades de Harvey e Marcus foram moldadas. Ela sente como sua própria culpa o fato de Harvey ter tanta dificuldade para lidar com o erro do irmão e sente culpa pelas fraquezas de Marcus. Ela pede então que Harvey não deixe que Marcus sofra as consequências de um erro que tem origem nos erros dela própria.
A satisfação de Harvey poder ter cenas desse tipo com sua mãe é enorme. A maior parte do arquétipo que compõe Harvey foi moldada em cima da sua história com Lily. Os seus valores de lealdade são ligados a isso, o seu desconforto com adultério tem raiz nisso, os seus problemas de abandono tem fundamento nisso, a sua necessidade de sempre parecer forte e indiferente tem fundamento nisso, a sua dificuldade de assumir sentimentos e ter um relacionamento real (apesar de toda a admiração que ele tem pelo conceito de família) está completamente sedimentada nisso. Quando vemos Harvey sendo capaz de superar mais um pouquinho dos seus problemas a partir de uma conversa com a própria mãe – razão dos problemas – então vemos que a evolução do personagem é maior do que nunca e ele pode finalmente estar pronto para tomar as decisões e assumir os riscos que precisa para encontrar felicidade.
Harvey então compreendeu que se foi capaz de perdoar a mãe, ele também seria capaz de perdoar ao irmão – que errou, sim, mas cujo erro tinha uma menor dimensão e assumia maiores proporções apenas na mente de Harvey, atormentada pelos antigos traumas. A estratégia de Harvey, porém, não era das mais nobres. Para que o irmão não perdesse a guarda dos filhos, a única solução que Harvey encontrou foi questionar a responsabilidade de Katie na tarefa de ser mãe.  
Marcus, antes fraco e falho, agora teve a honradez de rejeitar o plano de Harvey e exigiu que ele encontrasse um outro jeito. E ele encontrou. O Harvey advogado feroz deu lugar ao Harvey negociador sensível, um Harvey que entende os significados de perdão e amor e a necessidade de valorizá-los quando o assunto é família. Harvey contou a Katie qual foi a posição de Marcus sobre o plano que ele pretendia empreender e isso certamente amoleceu o coração da cunhada.
Depois de conseguir resolver a situação, Harvey decidiu encerrar seu dia doloroso ouvindo a voz de Donna. Ela, leitora de mentes, interpretou que o objetivo da ligação era que ela desse o recado a Robert de que retornaria no dia seguinte. Já eu acho que Harvey tem o número do telefone do próprio Robert. O que já sabemos ( e que Donna também sabe mas estava tentando negar) é que Harvey precisava do ouvido e das palavras de Donna para diminuir sua agonia e tentar preencher um pouco do pedaço que ele lhe sentiu arrancado.


Notas:

1. STRAWBERRIES AND WHIPPED CREAM!! STRAWBERRIES AND WHIPPED CREAM!! Vocês acreditam que o Harvey realmente falou que fica “animadinho” (pra dizer o mínimo) pensando nas coisas que ele e a Donna usaram na noite que ficaram juntos? E ele falou isso para a própria Donna? E ela nem relembrou o compromisso que eles tinham de não tocar nesse assunto? Desde quando é permitido trazer esse tema à tona? E ainda mais para flertar descaradamente? Eu assisti ( e sigo assistindo) gritando. A cena é perfeita e a química desses dois é surreal, mas ainda preciso de explicações de como de uma hora para outra eles se sentiram com a liberdade de conversarem desse jeito e com tão pouca vergonha. Enfim, que continuem.
2.  “Pra mim parece que foi há 12 anos e meio”. Aposto que o Harvey conta os anos, meses, dias e horas desde quando ele comeu chantilly e morango diretamente da pele de Donna.
3. Exceto pela falta de beijinho de despedida antes de ir pra Boston, Harvey e Donna pareciam um casal casado nesse episódio. Falo com tranquilidade.
4. Dois episódios consecutivos sem Katrina. Não é pra isso que você promove alguém a personagem regular.
5.  Mais uma vez estou aqui implorando para que Donna seja mais do que a “cola” que une os personagens. Ela está ali sempre reparando o problema de todos, consolando a todos, mas continuamos sem ver Donna tendo os próprios enredos.
         Curta Suits BRASIL!

         Assista a promo do próximo episódio "Cats, Ballet, Harvey Specter":







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